27 de Novembro de 2009 às 4:18

Insípida Lisboa

Lutando contra a maré, levantei-me da frente do computador após horas a fio de deambulações sem nexo por www e .coms, a procura de uma resposta de perguntas que esqueci-me tamanha era minha obsessão pela busca. Pensando agora mais calmamente acho que a única coisa que buscava era que o tempo passasse e eu não desse por isso. Tive meu afago, mesmo que breve e pelo computador, mas não suficiente para aplacar minha fome de ti. Sem direcção e nada para procurar de facto, recebi uma chamada. Uma oferta de carinho desprendido de compromisso. Me enterrar no braço de alguém que até o dia seguinte agiria como se eu fosse o amor da sua vida, e no instante a seguir seguiria normalmente como se nada houvera passado. Não que seja puritano, aliás muito longe disso, mas é que para mim seria o que? Esse tipo de anestesia já não me entorpece os sentidos...Nego o mais educadamente possível, e tento me entregar a uma velha rotina: a noite Lisboeta.
De retorno a um ambiente repleto de rostos familiares parece que o êxtase e felicidade por rever-me dura não mais do que um instante. É noite de festa, não há espaço para grandes emoções. Nestas noites, todas as emoções duram a eternidade de um segundo excepto a minha solidão. Mesmo cercado por aquele mar de gente cujas hormonas saltam juntamente com o álcool inebriando por completo seu discernimento, vejo-me ali: especado no meio da turba que move-se como uma só, ou melhor como dois corpos numa noite de sexo louco e inconsequente, a procurar um olhar que fosse de encontro ao meu e realmente me olhasse nos olhos.
Esforço em vão.
Num último e derradeiro esforço pensei que talvez o problema fosse meu. Chegado tarde, estar sóbrio, sem relaxar. Com o intuito de embebedar-me dirigi-me ao balcão com a convicção de quem conhece muito bem o caminho e sem delongas fiz meu pedido: "-Uma água por favor." Até agora não sei o que mais me surpreende. Minha completa falta de vontade de me envolver neste festim, ou a cara de susto do barman que inúmeras vezes já viu-me emborcar a cerca de 20 shots e sair agarrado beijando meia-dúzia de bocas ao mesmo tempo.
Buscando colo nas memória de outrora, resolvi percorrer algumas ruas, sentir o cheiro das ruas molhadas pela chuva, um cheiro que só Lisboa tem. Após algumas quadras apercebi-me que não cheirava a nada. Os sons da madrugada lisboeta já não ecoavam nos meus ouvidos. É como se tu...teu sabor, teu perfume, teus sons... tudo em ti sobrepusesse a minha pobre realidade. Como um tempero mais forte que sobrepõe os outros...o doce mais doce, que tira o sabor de tudo que a prossegue. Lisboa, minha Lisboa...agora insípida ao meu paladar, és meu cárcere por mais uns dias, se até lá a fome eu não definhar.